sábado, 12 de março de 2011

O Estilo

"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos do Amor ou da Morte... Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Uma vez fui a um médico.

- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.

- Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?

- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?

O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos."

Herberto Helder (penso, não me apetece ir confirmar)


Vamos ressuscitar o blog? Acabar com a partilha pelo facebook e consequentes milhares de e-mails.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Good Love Is On The Way


"(...) Good to go for wherever I'm needed
Bags are packed and I'm
Down by the door (...)"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Álvaro de Campos - Outro Poema

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma imensa simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Àquele pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos, que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Jota apanhado na noite brasileira

Mapa Mundo

Alguem me oferece um destes?


Pa decorar aquela divisão da minha futura mansão que será respeitante a viagens...
tem medidas de 73" x 48" ptt ainda faz uma bela parede...


Gonçalo sê rico para me dares presentes assim sff
Eu, por exemplo, se tivesse agora uns 50eur a mais, seria bue romantico para voces e enviar-vos-ia um mapa da Ásia a cada um;)
sabe-se la porquê..

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Carrom

Segundo a tradição já nos tempos dos faraós jogava-se um jogo de tabuleiro com buracos. Em diferentes relatos históricos, entre outros no do filósofo grego Anarcasio, é descrito um jogo parecido com o actual Carrom. Posteriormente, este jogo teria passado, através da Etiópia e do Iemen, para a India. Ainda hoje em dia joga-se no Iemen um jogo denominado de Kairam.


Wolfgang Amadeus Mozart - ComponistaForam os portuguesas que, já no século XVII, introduziram esse jogo na Europa. O jogo de Carrom jogou-se com assiduidade nas cortes reais europeias e teve até no célebre Mozart um fervoroso adepto. Porém, o jogo caiu depois no esquecimento.


Actualmente o jogo encontra-se largamente difundido na Ásia inteira e recomeça a sua penetração na Europa.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Monsieur Pierre

Penso que em tempos já postei qualquer coisa sobre o meu primo francês cantor...

deixo-vos o link do MySpace dele pa verem o novo album que inclui uma faixa em que o Bonga tb participa;)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Steve McCurry


http://www.stevemccurry.com/main.php

Este jovem é um distinto fotógrafo da National Geographic...Aquele da mítica foto da menina afegã!
Convido-vos a darem uma vista de olhos na galeria..Tem la umas quantas q recomendo... A "War", "Landscapes".. Esta última tem uma foto de uma estação de comboios da Índia que adoro...A própria galeria "India"...
Este jovem começou sabem onde?! na Índia!..queria ir pa la uns meses para realizar o primeiro portfolio e acaba por lá ficar 2 anos...
Entretanto já lá esteve 75 vezes... Vai lá voltar em Março para um workshop de 2 semanas..Daqueles brutais mas que ainda são carotes..

Será que um dia terei esta liberdade? Como vocês sabem, gostava de ser assim quando for grande!
Vou ver a exposição dele por aqui por Milão até ao fim deste mês;)

"Um copo de Sol"

"Um copo de Sol" na cidade que me trará tanta saudade daqui a uns meses!


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

You got it going on

Agora que o Diogo Pedro tomou a iniciativa de trazer algo de verdadeiro interesse para o blog (e com muito sucesso a meu ver), vou dar azo à parvoíce que me é inerente. Deste modo, e apesar do mau timing, aqui deixo uma música dedicada ao Simão (quem mais?).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Política de café no presente

Os cafés onde se faz política

Publicado em 25 de Setembro de 2009 em www.ionline.pt


No fim-de-semana em que todos vamos ficar a saber se afinal é José ou Manuela, procurámos restaurantes e cafés lisboetas com política dentro. Um pouco da história de Portugal dos últimos 100 anos passou por aqui

Em vésperas das eleições legislativas, procurámos os sítios ideais para confessarmos a nossa secreta intenção de voto aos camaradas de copos. Se estas paredes falassem, segredavam-nos palavras que impulsionaram momentos históricos da vida política portuguesa. Outras paredes houve que não sobreviveram para contar e outras ainda que foram silenciadas por remodelações radicais ou ironias do destino: o Café Chave d'Ouro, onde Humberto Delgado desafiou Salazar em 1958 com a mítica frase "Obviamente demito-o", e o Café Londres, onde Otelo demoveu Melo Antunes de abandonar o MFA um mês antes do 25 de Abril, são hoje dependências bancárias. É verdade que já não se conspira como antigamente - a não ser que seja tudo muito bem combinadinho por email ou SMS - mas sempre é melhor discutir-se política de barriga cheia ou com vista para o mar.

1. Café Gelo
Ninguém diz que foi ali, naquele café para almoços com tempo contado e lanches bem aviados, que Alfredo Costa e Manuel Buiça acertaram os últimos pormenores para o regicídio de D. Carlos I, a 1 de Fevereiro de 1908. E ninguém diz que foi ali porque, na verdade, nada resta do Café Gelo inaugurado em meados do século XIX e encerrado nos anos 70. O que vemos hoje, no Rossio, é uma sequela inaugurada em 2007, depois de anos de ocupação do espaço por uma hamburgueria deprimente chamada Abracadabra. O Café Gelo reabriu com o nome antigo e decorado com fotos do que foi noutros tempos. Era também lá que, nos anos 50 e 60, se reunia o chamado Grupo do Gelo, que incluía os surrealistas Mário Cesariny e Luiz Pacheco. Porém, depois de uma entrada violenta da PIDE a 1 de Maio de 1962, foram todos proibidos de lá voltar. Consta que até os açucareiros andaram pelo ar.
Praça D. Pedro IV, 64. Todos os dias, das 7h00 às 00h00. 213 426 280

2. Farol Hotel Design
Seria demasiado chique dizer "Vou só ali conspirar ao Farol Hotel Design". É que, na altura em que militares e civis se juntavam para conspirar contra o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, durante o PREC, esta era simplesmente a Estalagem do Farol. Situado entre a Boca do Inferno e a Marina de Cascais, é ainda hoje um recanto propício a conversas discretas desde que a conspiração não calhe em dia de casamento alheio ou na produção fotográfica de uma qualquer cara famosa da imprensa cor-de-rosa. A ebulição política do passado está documentada numa placa com os nomes dos antigos conspiradores. Mas hoje as estrelas são outras. A estalagem, originalmente uma mansão do século XIX, propriedade do conde de Cabral, é agora um hotel de luxo com quartos decorados por estilistas de renome como Ana Salazar, José António Tenente e Fátima Lopes. Quem for de passagem, goza da vista para o mar na esplanada do bar do hotel. Sempre pode descansar os olhos no horizonte e sonhar com o exílio em modo turístico
Av. Rei Humberto III de Itália, 7. 214 823 490

3. Restaurante Tavares
Se é o primeiro restaurante do país (1784) e um dos mais antigos do mundo, não será fácil inventariar tudo o que de politicamente relevante já foi debatido às mesas do Tavares. Mas dois momentos marcam para sempre a sua longa história: o jantar de Sidónio Pais antes da tomada do poder, em 1917, e o de Francisco Sá Carneiro, em 1980, na véspera da sua morte. Umas refeições caem melhor, outras pior. O restaurante mantém viva a memória dos notáveis que por lá passaram e até das cadeiras onde especificamente se costumavam sentar. No que toca a conspirações, as menos secretas foram protagonizadas no final do século XIX pelo grupo Vencidos da Vida, formado pelos clientes habituais Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Oliveira Martins, entre outros.
Rua da Misericórdia, 37. Todos os dias das 12h30 às 14h30 e das 19h30 às 23h00. 213 421 112

4. Bar Procópio
É o ex-líbris da conspiração em Portugal, ponto de encontro de políticos, jornalistas e artistas desde 1972. Aqueles que passaram pela Estalagem do Farol, também terão bebido aqui um copo. Talvez tenham ocupado a estratégica mesa dois do Procópio - aquela a que se prestam hoje as mais nostálgicas homenagens. Até porque morreu este ano um dos seus protagonistas, considerado o "patriarca da mesa dois": Aventino Teixeira, membro do Grupo dos Nove, a facção mais moderada do Movimento das Forças Armadas de que também fazia parte Melo Antunes. O Procópio tem-se mantido igual a si mesmo mas a sua vida política tem-se tornado, por assim dizer, mais politicamente correcta. Todos os anos, por alturas do seu aniversário, são atribuídos os Prémios Procópio a diversas personalidades - entre os premiados estão Ana Gomes, Durão Barroso e Ferro Rodrigues. Para os anónimos, não há prémios mas há pregos. E cocktails.
Alto de S. Francisco (Jardim das Amoreiras), 21A. Segunda a sexta, das 18h00 às 3h00; sábado das 21h00 às 3h00. Encerra aos Domingos. 213 852 851

5. Versailles
Não é propriamente local para conspirações mas já esteve na berlinda por questões políticas. Enquanto vemos Jerónimo de Sousa, durante a campanha, a envolver o povo nos seus braços orgulhosamente suados, lembramo-nos de um dos argumentos que levou à expulsão de Zita Seabra do PCP: ser frequentadora desta burguesa pastelaria, onde o mindinho espetado substitui o punho cerrado. Inaugurada a 25 de Novembro de 1922 (mais de 50 anos depois, a data ganharia uma conotação apropriada a este contexto), a Versailles sobreviveu à invasão dos hambúrgueres, mantendo a sua decoração Arte Nova, e continua a convidar a um tranquilo chá das cinco como no tempo em que ainda havia tempo. Zita Seabra mudou de ala política mas o lanche da discórdia já ninguém lhe tira.
Av. República, 15A. Todos os dias das 07h30 às 22h00. 213 546 340

6. Martinho da Arcada
Reclama para si o título de "café mais antigo de Lisboa", fundado em 1782, mas está em risco de fechar as portas por causa do caos provocado pelas alterações no trânsito do Terreiro do Paço. Fernando Pessoa nunca teria sido um grande escritor se, no tempo em que ali parava, tantos autocarros se lhe atravessassem à frente das ideias. O último trunfo do Martinho da Arcada é uma reciclagem do passado de conspirações liberais e tertúlias intelectuais (foi lá que Almada Negreiros declamou o seu Manifesto Anti-Dantas) que marcou a sua história: desde o início deste mês que o histórico café alberga conversas, hoje menos secretas, encabeçadas por notáveis como Mário Soares, Eduardo Lourenço e Júlio Pomar, entre outros. Todas as quintas, qualquer um pode participar nestas novas tertúlias por 25 euros (com jantar), às 20h00. E sem precisar de olhar por cima do ombro.
Praça do Comércio, 3. De segunda a sábado, das 7h00 às 23h00. 218 879 259

Cafés Literários

À mesa do café nasceram e morreram revoluções em Portugal. Poder-se-á dizer que muito da história política do país se fez aí. No imaginário dos lisboetas menos novos, a Brasileira - sem o actual balcão -, os desaparecidos Café Chiado, Martinho e Brasileira (ambos do Rossio), Gelo, Chave d'Ouro, Portugal, Palladium, Montecarlo, Paulistaria, são lugares indissociavelmente ligados a um tempo de tertúlias artísticas e literárias. Não se ia ao café apenas para tomar apressada «bica»; ali estudava-se, ali aprendia-se com escritores, pintores, cientistas que lá estariam das tantas às tantas horas. Em alguns, como o Montecarlo, também se jogava bilhar, xadrez, gamão, damas. Engraxavam-se sapatos. E até se faziam conferências de imprensa, nenhuma tão famosa, todavia, como aquela em que Humberto Delgado, no Chave d'Ouro, em 1958, anunciou que demitiria Salazar.

Território quase exclusivamente masculino, poucas mulheres se atreviam a desafiar os costumes e a misturar-se com os grupos de homens, que, à volta da pequena mesa, reinventavam o mundo.

Não seria o Marquês de Pombal o responsável pelo aparecimento do primeiro café em Lisboa. Mas propiciaria a profusão destes estabelecimentos quando, depois do terramoto de 1755, com o plano de recuperação, abriu novas perspectivas urbanísticas e comerciais. Gérard-Georges Lemaire (in «Les Cafés Littéraires», Paris, 1977) menciona o botequim de Marcos Filipe, no Largo do Pelourinho. Fechou em 1860, depois de ter ganho reputação, no princípio do século XIX, de ponto de encontro de patriotas que conspiravam contra os invasores napoleónicos.

Entre o café e a taverna, os operários portugueses preferiam a segunda. A «gente fina» ia ao Nicola jogar bilhar. Não seria, porém, essa clientela que lhe daria fama até hoje. Mas as tertúlias de políticos e de poetas como Bocage. Quem muito lhes apreciava a presença, em particular a dos poetas, era o criado José Pedro da Silva. Emprestava-lhes dinheiro «a fundo perdido» e, no caso de Bocage, pagou-lhe mesmo o funeral.

José Pedro da Silva deixou o Nicola para se estabelecer ao lado por conta própria. Aprimorar-se-ia na decoração do botequim com cachos de uva e parras, pintados a primor. E lá começaram a chamar-lhe «das Parras», ponto de encontro de simpatizantes liberais e artistas de vários misteres.

Em 1824, quando fechou, deixava a memória de algo irrepetível: um gabinete, que o proprietário mandara construir a um canto do salão, para uso exclusivo dos poetas: chamava-se Lugar Favorito dos Sábios. Lá entrar constituía privilégio.

«Lisboa era o Chiado, e o Chiado era o Marrare, e o Marrare dava o tom (...)», escrevia Sousa Bastos, em «Lisboa Velha, Setenta Anos de Recordações». Inaugurado em 1820 e de certo modo sucessor do Botequim das Parras, o Marrare era o mais requintado dos quatro cafés que o napolitano António Marrare abrira em Lisboa. Um luxo, a decoração de madeira polida, que logo lhe valeu o sobrenome de Marrare do Polimento. Além da sala de bilhar, tinha ainda um pequeno pátio coberto por uma clarabóia envidraçada onde, no Verão, as senhoras podiam comer os melhores gelados da cidade. Polido era também o atendimento: criados de libré serviam excelente café em cafeteiras de prata. Requintes para uma clientela ávida de mudança. O Marrare tornara-se «o lugar de reunião de todos os elegantes e todos os homens de Lisboa», como escreveu Bulhão Pato. Basta lembrarmos alguns dos indefectíveis: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Passos Manuel, José Estêvão. Fechado em 1866, o Marrare reviveria em «Os Maias» de Eça de Queirós. No século seguinte, no mesmo número da Rua Garrett, teria digno sucessor: aquele que alguns considerariam o mais belo de Lisboa: o café Chiado (1925-63).

Tantos outros cafés houve na cidade com histórias que fizeram a história cultural e política do país: um dos mais antigos, o Martinho da Arcada, que Pessoa, sentando-se sempre à mesma mesa, frequentou até morrer; o Herminius, na Almirante Reis, um café de «reformados, de desempregados e de pequenos chulos», como escreveu Cardoso Pires, foi, com o Gelo, ponto de encontro do grupo surrealista. O Vá-Vá, também conhecido pelo «ninho de lacraus», nos anos 60, reunia realizadores do cinema novo português. Na mesma altura, Ferreira de Castro frequentava a pastelaria Veneza. Almada Negreiros, a pequena Brasileira do Chiado.

José Cardoso Pires tanto ia ao minúsculo Passo - poiso de Ventura Ferreira, Fernando Namora e Palla e Carmo, onde se bebia o meio uísque mais barato de Lisboa - como ao Montecarlo, que juntava Carlos Oliveira, Abelaira, Gomes Ferreira e outros «herdeiros» do neo-realismo. Coexistiam - à distância de algumas mesas - com surrealistas e «aparentados». De Pedro Oom a Virgílio Martinho, de Luís Pacheco a Herberto Helder.

O 25 de Abril confundiria, no entanto, à sombra do PCP, parte substancial dessas capelinhas. Último grande café de tertúlias da cidade, o Montecarlo congregou os clientes dos que iam fechando: até ao seu encerramento, nos anos 90.

Excerto de http://www.trazegnies.arrakis.es/rest-lisboa.html

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Lions in the Street

Lions in the street and roaming
Dogs in heat, rabid, foaming
A beast caged in the heart of a city
The body of his mother
Rotting in the summer ground.
He fled the town.
He went down South and crossed the border
Left the chaos and disorder
Back there over his shoulder.

One morning he awoke in a green hotel
With a strange creature groaning beside him.
Sweat oozed from its shiny skin.

Is everybody in?
The ceremony is about to begin.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Oscar Wilde

“Não defendo o meu procedimento. Explico-o. Há também na minha carta certos passos que se referem ao meu desenvolvimento mental na prisão e à inevitável evolução do meu carácter e atitude intelectual para com a vida daí derivada; e quero que Você e os outros que ainda se mantêm a meu lado e por mim ainda conservam afeição saibam exactamente em que disposição de espírito e de que modo espero defrontar o mundo. É claro que, sob certo ponto de vista, sei que no dia da minha libertação nada mais farei do que passar de um cárcere para outro, e ocasiões há em que o mundo inteiro me parece não maior do que a minha cela e me infunde o mesmo terror. Todavia, creio que no princípio Deus fez um mundo para cada homem separado, e nesse mundo, que existe dentro de nós, devia cada qual procurar viver. Como quer que seja, essas partes da minha carta hão-de penalizá-lo menos que as outras. Não necessito, é claro, de lhe lembrar que fluída coisa é para mim o pensamento – para nós todos – e de que evanescente substância são feitas as nossas emoções. Contudo, vejo uma espécie de possível meta para a qual, por meio da arte, poderei orientar os meus passos.

A vida da prisão faz-nos ver as pessoas e as coisas como realmente são. Por isso é que ela nos transforma em pedra. Só as pessoas lá fora é que são enganadas pelas ilusões duma vida em constante movimento. Giram com a vida e contribuem para a sua irrealidade. Nós, que estamos imóveis, vemos e sabemos.
Faça ou não esta carta bem a naturezas tacanhas e cérebros hécticos, fez-me bem a mim. ‘Limpei o seio de muita ganga perigosa.’ Não preciso de lhe lembrar que a mera expressão é para um artista a suprema e única feição da vida. Se não nos manifestamos, não vivemos. (...) Há quase dois anos que trago dentro de mim um peso crescente de amargor, de uma grande parte do qual me libertei agora. Do outro lado do muro da cadeia há umas pobres árvores de que estão agora a brotar botões de um verde quase gritante. Sei perfeitamente o que nelas se está a passar: estão procurando expressão.”

Isto foi incluído nas instruções acerca de uma carta que Oscar Wilde escreveu enquanto esteve preso.
Eu só tenho a dizer que até hoje sinto que falhei.(Perceberá quem tiver de perceber)

P.S.- Quanto à insinuação do Bilé de não ser saudável partilhar pensamentos comigo.... eu sou a prova viva disso!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Retratos

Não tenho a arte do Marco para fazer posts, mas isto também é bem interessante...

E quis postar também porque o blog estava a revelar um padrão muito perigoso... os últimos posts são todos do Marco!! E toda a gente sabe que a partilhar pensamentos só com o Marco, ninguém fica saudável...eheh

Entretenham-se!

http://www.newyorker.com/online/multimedia/2009/12/07/091207_audioslideshow_platon

Diogo Vaz Pinto

"Na última infância já só trocávamos desinteresses
e olhares de despedida, amostras de perfume
gratuitas e algumas passagens sublinhadas
- os reflexos cada vez mais baços de uma bijutaria
existencial. Partimos o mundo em metades,
deitámos mais cedo os filhos que não tivemos
e despimo-nos já sem desejo, só um resto de ternura
misturada com o susto que nos corria nas veias.

Há umas noites atrás vi-te a escassos passos
de um clube nocturno. Pediste lume a um estranho
e eu tentei avaliar a conotação
presa em cada gesto teu, na largura do sorriso,
na força do olhar, etc. Não sei o que me pareceu.

Esta manhã, à saída do duche, vi que conseguiste
aparecer na televisão. Já que é o que querias
dou-te os parabéns. Tive uma certa pena
de ti - ou de nós, não sei. Logo a seguir
alguma morte mais assinalável teve destaque
na engrenagem noticiosa, junto com a actual crise
de qualquer coisa. Como sabes não ligo muito
aos advérbios de modo que colam as nossas sensações
e se ainda ligo a televisão é só porque esse
é um outro modo mais leve de me calar e sentir
que sou estúpido e estou sozinho. Eis o inferno,
esta loja de conveniência aberta 24 horas por dia,
todos os dias da semana.

Além de umas latas de cerveja e do maço de cigarros,
repara que nenhum de nós precisa muito de nada disto.
Comparar o tamanho das cicatrizes pode ser ainda
uma forma de cruzar palavras, uma imagem de marca
ou até uma patologia. Ou talvez seja apenas a natureza
das coisas restantes - o pouco com que escapamos
à guilhotina do silêncio. Seja como for eu não vim aqui hoje
para acender algum significado, não sei se a vida
é isto ou se se aproveita mais de outros versos,
nem sei se ainda vamos a tempo ou se vale
sequer a pena mudar alguma coisa. A mim agora
só me apetece descer devagar esta rua
e apagar contigo, uma a uma, todas as luzes da cidade."

E já que a Teresinha tanto defende os posts, Fernando Namora:
"E encostada a mim, oferecendo o corpo como escudo, teve, de súbito, um gesto tão feminino, tão humilde, que, por muito que eu o evitasse, me enterneceu: ela descalçara os sapatos, atirara-os para longe e dissera, apertando-me sempre:
-Assim está mais certo. Fico mais pequenina junto de ti. Do meu verdadeiro tamanho.
Do seu verdadeiro tamanho: uma pobre coisa exposta às ressacas do meu temperamento"