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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Álvaro de Campos - Outro Poema

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma imensa simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Àquele pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos, que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Oscar Wilde

“Não defendo o meu procedimento. Explico-o. Há também na minha carta certos passos que se referem ao meu desenvolvimento mental na prisão e à inevitável evolução do meu carácter e atitude intelectual para com a vida daí derivada; e quero que Você e os outros que ainda se mantêm a meu lado e por mim ainda conservam afeição saibam exactamente em que disposição de espírito e de que modo espero defrontar o mundo. É claro que, sob certo ponto de vista, sei que no dia da minha libertação nada mais farei do que passar de um cárcere para outro, e ocasiões há em que o mundo inteiro me parece não maior do que a minha cela e me infunde o mesmo terror. Todavia, creio que no princípio Deus fez um mundo para cada homem separado, e nesse mundo, que existe dentro de nós, devia cada qual procurar viver. Como quer que seja, essas partes da minha carta hão-de penalizá-lo menos que as outras. Não necessito, é claro, de lhe lembrar que fluída coisa é para mim o pensamento – para nós todos – e de que evanescente substância são feitas as nossas emoções. Contudo, vejo uma espécie de possível meta para a qual, por meio da arte, poderei orientar os meus passos.

A vida da prisão faz-nos ver as pessoas e as coisas como realmente são. Por isso é que ela nos transforma em pedra. Só as pessoas lá fora é que são enganadas pelas ilusões duma vida em constante movimento. Giram com a vida e contribuem para a sua irrealidade. Nós, que estamos imóveis, vemos e sabemos.
Faça ou não esta carta bem a naturezas tacanhas e cérebros hécticos, fez-me bem a mim. ‘Limpei o seio de muita ganga perigosa.’ Não preciso de lhe lembrar que a mera expressão é para um artista a suprema e única feição da vida. Se não nos manifestamos, não vivemos. (...) Há quase dois anos que trago dentro de mim um peso crescente de amargor, de uma grande parte do qual me libertei agora. Do outro lado do muro da cadeia há umas pobres árvores de que estão agora a brotar botões de um verde quase gritante. Sei perfeitamente o que nelas se está a passar: estão procurando expressão.”

Isto foi incluído nas instruções acerca de uma carta que Oscar Wilde escreveu enquanto esteve preso.
Eu só tenho a dizer que até hoje sinto que falhei.(Perceberá quem tiver de perceber)

P.S.- Quanto à insinuação do Bilé de não ser saudável partilhar pensamentos comigo.... eu sou a prova viva disso!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Diogo Vaz Pinto

"Na última infância já só trocávamos desinteresses
e olhares de despedida, amostras de perfume
gratuitas e algumas passagens sublinhadas
- os reflexos cada vez mais baços de uma bijutaria
existencial. Partimos o mundo em metades,
deitámos mais cedo os filhos que não tivemos
e despimo-nos já sem desejo, só um resto de ternura
misturada com o susto que nos corria nas veias.

Há umas noites atrás vi-te a escassos passos
de um clube nocturno. Pediste lume a um estranho
e eu tentei avaliar a conotação
presa em cada gesto teu, na largura do sorriso,
na força do olhar, etc. Não sei o que me pareceu.

Esta manhã, à saída do duche, vi que conseguiste
aparecer na televisão. Já que é o que querias
dou-te os parabéns. Tive uma certa pena
de ti - ou de nós, não sei. Logo a seguir
alguma morte mais assinalável teve destaque
na engrenagem noticiosa, junto com a actual crise
de qualquer coisa. Como sabes não ligo muito
aos advérbios de modo que colam as nossas sensações
e se ainda ligo a televisão é só porque esse
é um outro modo mais leve de me calar e sentir
que sou estúpido e estou sozinho. Eis o inferno,
esta loja de conveniência aberta 24 horas por dia,
todos os dias da semana.

Além de umas latas de cerveja e do maço de cigarros,
repara que nenhum de nós precisa muito de nada disto.
Comparar o tamanho das cicatrizes pode ser ainda
uma forma de cruzar palavras, uma imagem de marca
ou até uma patologia. Ou talvez seja apenas a natureza
das coisas restantes - o pouco com que escapamos
à guilhotina do silêncio. Seja como for eu não vim aqui hoje
para acender algum significado, não sei se a vida
é isto ou se se aproveita mais de outros versos,
nem sei se ainda vamos a tempo ou se vale
sequer a pena mudar alguma coisa. A mim agora
só me apetece descer devagar esta rua
e apagar contigo, uma a uma, todas as luzes da cidade."

E já que a Teresinha tanto defende os posts, Fernando Namora:
"E encostada a mim, oferecendo o corpo como escudo, teve, de súbito, um gesto tão feminino, tão humilde, que, por muito que eu o evitasse, me enterneceu: ela descalçara os sapatos, atirara-os para longe e dissera, apertando-me sempre:
-Assim está mais certo. Fico mais pequenina junto de ti. Do meu verdadeiro tamanho.
Do seu verdadeiro tamanho: uma pobre coisa exposta às ressacas do meu temperamento"

sábado, 29 de agosto de 2009

Mário-Henrique Leiria

"Ainda me lembro. O melhor presente que tive foi sem dúvida aquela flóber. Toda a garotada da terra colaborou no meu entusiasmo. Íamos para o campo, pam pam, pardal aqui, pam pam, pardal ali.
A única arrelia que tive com ela foi quando um dia, sem querer, pam, acertei em cheio na tia Albertina.
Para castigo não me deixaram ir ao enterro."

"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."

"Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade."

domingo, 9 de agosto de 2009

José Gomes Ferreira

Ah! Se ao menos a tua carne fosse real
e não esta procura constante de existires
na lógica de um sonho
com musgo de arco-íris.

sábado, 20 de junho de 2009

Se te queres matar - Álvaro de Campos

"Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo..."

Caso alguém se encontre particularmente paciente.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Fuga ao embrutecimento

"(...)Antes de começar a pensar no livro, ou seja na morte da bezerra, liguei a um camarada meu: o almoço é para a semana. Interessou-se sobre como é que eu estava, eu que nunca sei como estou e sou incapaz de responder
- Vamos andando
sobretudo quando estou sentado
- Como estás?
é uma bela questão. Normalmente respondo
- Sei lá
porque não gosto de mentir. E sei lá de facto. Umas vezes estou redondo, outras quadrado, outras cheio de picos, outras liquefeito, outras não estou sequer: deslizo por aí armado em nuvem.
- Como estás?
e é impossível responder
- Deslizo por aí armado em nuvem
de modo que me calo ou resmungo sons desconexos. Não sou de todo mau em sons desconexos, tenho anos de treino. Escrevo isto e sinto as almôndegas a conversarem comigo: despenharam-se-me na barriga feitas pedregulhos, rebolam cá por dentro num fundo de puré, meio dissolvido pelo vinho branco: é o que acontece a quem se mete com minipratos. Devia ter pedido bicos de rouxinol. Ou ter acertado no dia do almoço com os meus camaradas de guerra a lembrar os maus velhos tempos
- Sai uma de bicos de rouxinol para a mesa doze
e a cozinheira lá dentro a prepará-los.
Se me interrogarem
- Como estás?
explico que não estou redondo nem quadrado. Neste momento acho-me mais uma espécie de losango.
- Estou losango
quem interroga a olhar para mim sem entender:
- Losango?
e eu
- Sim, losango, nunca te sentiste losango?
Nunca se devem ter sentido losangos. Há alturas em que me acontece pensar que as pessoas são esquisitas mas deve ser problema meu. Aposto o que quiserem que é problema meu."

Crónica Completa


Gosto de poesia, de prosa com laivos de poesia, de psicologia como forma de descorrer motivos, de sentimentalismos sem lamechices (apesar de ainda estar para descobrir onde se separam ao certo).

Hoje quero ler mas vou beber, gosto de beber, especialmente com determinadas pessoas, pessoas com quem me divido entre conversas sérias (pseudo?) ou conversas parvas, beber sem uma pessoa assim é beber sozinho sem ficar com ar de alcoólico, porque é que isso me haveria de interessar?

Não gosto de regras que não as minhas, de principios que não os meus nem de boa educação quando se lê hipocrisia.

Gosto da confiança na certeza de quem nada sabe e da verdade que não me é indiferente.
















Gosto da confusão e do absurdo, é bonito.

"
Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Quantos são hoje? Nunca sei às que ando, confundo tudo, perco-me sempre, os dias, as horas, às vezes cumprimento pessoas que não conheço, há uma semana ou isso entrei num antiquário, sentei-me a uma mesa D. João V e quando a senhora da loja veio, de uns armários franceses ou lá o que era, pedi-lhe que me servisse um uísque. Uma senhora com mais pulseiras que tu e anéis caros, de maquilhagem a lutar com a idade e a perder. Ficou a olhar para mim de cara ao lado. Depois perguntou-me se eu estava bêbado e depois começou a medir a distância entre ela e a porta a fim de chamar por socorro. Numa das paredes paisagens emolduradas a talha, o retrato de uma viscondessa decotada, estampas de cavalos com legendas em francês. A viscondessa usava um anel no indicador rechonchudo e tinha cara de jantar bicos de rouxinol todos os dias, servindo-se dos talheres como se cada dedo fosse um mindinho, desses que a gente enrola para beber o café. A minha irmã, pelo menos, enrola. Eu sou mais para o género de o esticar, tipo antena. Educações. Tu não enrolas nem esticas, deixas a mão inerte na minha. Não te apetece apertar-me, não tens vontade de ser terna? Gostava que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo. Segundo a minha irmã sou só parvo. A propósito de tudo e de nada
- És tão parvo
e eu, mudo, a dar-lhe razão no fundo de mim(...)" Completa

domingo, 31 de maio de 2009

Crepúsculo Dos Ídolos ou Como Filosofar Com Um Martelo

"A ociosidade constitui o começo da psicologia. O quê? Poderá a psicologia ser um vício?

Qual deles é? Será o homem o único erro de Deus ou Deus o único erro do homem?

Não sejamos cobardes face Às nossas acções! Não as deixemos posteriormente ao abandono! Remorsos na consciência são indecentes!

Os homens póstumos - tal como eu, por exemplo - não são tão bem compreendidos quanto os homens do seu tempo, mas são mais bem escutados. Mais precisamente, nunca somos compreendidos e daí a nossa autoridade...

O quê? haveis escolhido virtude e uma pesada tarefa, porém, em simultâneo, olhais com inveja para as vantagens usufruídas por aqueles que vivem ao sabor de cada momento? Mas com a virtude renuncia-se à vantagem...

O desprezo protege um indivíduo até de uma gripe.

Desconfio de todos os sistematizadores e evito-os. O desejo de um sistema constitui falta de integridade."

Friedrich Nietzsche

À atenção do Bilé, como uma prenda.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lobo Antunes

"(...) e a lembrança do frasco de perfume esquecido a aumentar, de chinelos conjugais no corredor, de outra escova de dentes no copo, e de repente uma vozinha de pavio de círio

- Você sabe o que é ter saudades de uma escova de dentes, amigo?

Por acaso sei, enfim julgo que sei mas calo-me. Uma escova de dentes cor de rosa, com pêlos brancos um bocadinho desgrenhados, uma escova de dentes linda a iluminar-me uma zona escondida da alma. Procuro trocos na algibeira, peço

- Dê-me aí um calicezito de bagaço

que não me importa que o meu fígado se torne uma esponja esburacada. A gente tem de morrer de qualquer coisa, não é?"

Caso a queiram ler toda--> Aqui

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ouço dizer a verdade/ e sorrio indiferente.../ A Verdade!


"Foi numa noite soturna, a mais soturna possível das noites.(...) Chovera todo o dia uma chuva particularmente fria e escura, uma chuva quase ameaçadora, lembro-me disso, cheia de uma hostilidade evidente para com as pessoas, mas, de súbito, depois das dez da noite, a chuva parou e o ar ficou muitíssimo húmido, mais húmido e frio do que enquanto chovia(...). O céu estava muito escuro, mas era possível distinguir nele umas nuvens rasgadas e, por entre elas, manchas negras sem fundo. De repente entrevi numa dessas manchas uma estrelinha e comecei a olhar fixamente para ela. Foi porque a estrelinha me sugeriu uma ideia: matar-me nessa noite."

"deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precariedade doutro corpo.(...)"

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mário Sá-Carneiro

Campainhada
As duas ou três vezes que me abriram
A porta do salão onde está gente,
Eu entrei, triste de mim, contente ---
E à entrada sempre me sorriram...


Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Desdobro-me em vénias

-(...)E o senhor não lhe dá dinheiro?
- Príncipe! Estimadíssimo príncipe! Não só dinheiro, mas por esse homem estou pronto até a dar, por assim dizer, a vida... aliás, não quero exagerar: a vida não, mas uma febre, por assim dizer, ou um abcesso, ou até uma tosse... juro por Deus que estou pronto a sofrer, se for caso disso, claro, de uma necessidade muito grande... porque o considero um grande homem, mas um homem perdido! Como vê, não só dinheiro!
- Quer dizer que, afinal, lhe dá dinheiro?
- N-não, não lhe tenho dado dinheiro, e ele próprio sabe que não lho darei, mas unicamente com vista à abstinência e ao corrigimento dele.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

António Lobo Antunes - Precário Fio dos Dias

Estive a ler cartas que escrevi a um tio aos vinte anos e surpreende-me como não mudei. Eu ali todo, igualzinho: as mesmas interrogações, as mesmas dúvidas, o mesmo modo de olhar os outros, de me olhar. Sou isto, assim desde o início, serei certamente isto até ao fim. Quando? Que esquisito haver fim, que inconcebível morrer. Viver também, aliás, no precário fio dos dias, desequilibro-me, não me desequilibro. Onde fui arranjar uma expressão tão pretensiosa, precário fim dos dias, tão parva. Que lugar-comum sou. Olha-te sem piedade, não te comovas contigo. Não te deixes vencer. Não te desculpes. E sobretudo não faças do que julgas ser
(e talvez sejas)
uma lágrima de vela a escorregar devagarinho, rosada, quase transparente.
Mesmo que os outros não notem tu notas. Não te dispas sem pudor. Aguenta-te, conforme recomendava o Júlio na altura em que estavas à brocha. Não
- Com um aspecto desses não te acontece nada
não
- Uma prima minha foi operada há séculos e ainda cá anda
o Júlio Pomar somente
- Aguenta-te
e eu pata aqui pata ali a aguentar-me nas canetas. Pergunta:
- E agora?
resposta:
- Aguenta-te
que é a única coisa honesta que se pode dizer a um amigo. Aguento-me, Júlio, descansa que me aguento. E estou a escrever, com o livro a sair numa facilidade de mau agoiro: desconfio sempre no caso de as palavras me chegarem depressa. Como afirmam os chineses se o pobre come galinha um dos dois está doente. Por onde comecei eu isto? Ah!, pelas cartas que escrevi. A tinta desbotou, eu não. Com as cartas, retratos. A minha mãe toda giraça. Os meus avós. As expressões idiotas que arranjamos para as fotografias, tão pouco naturais, acanhadas. Eu incluído, claro, tão acanhado quanto eles. A minha mãe não, à vontade, pinoca, o pai dela sério, com ganas de esconder-se. Não me lembro de o ver alegre, de o ver rir-se. A ideia que me ficou é que não ligávamos nenhuma um ao outro. Foi de certeza um homem infeliz, morreu cedo por delicadeza. Não acho que tenha morrido de cancro, acho que morreu de pena. Era engenheiro, trabalhava em não sei quê no Estado. Lia o jornal na varanda de Nelas e gostava de trovoadas. Trovejava e ele à janela a olhar os relâmpagos, enquanto a minha avó, a tremer de medo, rezava a Santa Bárbara e espiava as lareiras da sala, uma diante da outra, no pânico que um raio descesse a chaminé e nos reduzisse a fanicos. E o meu avô, de casaco de linho branco, a pasmar para a serra iluminada. Os castanheiros da casa, ouriços verdes que eu esmagava contra uma pedra. Céus altíssimos, vinhas e vinhas. Aguenta-te. Acabando esta crónica volto para o livro que não pára de chamar. A minha mãe de chapéu, de braço dado com os irmãos, a fitar a gente. A minha avó, de quem gostei muito. Quer dizer, continuo a gostar. E o pai da minha avó, um general de bigodes imensos, que conheci de ouvir dizer. Condecorações numa cómoda. Coisas gastas, passadas. Quanto ao presente, aguenta-te. Aguenta a felicidade, por exemplo. E lá fora uma tarde de chuva, poças de água, humidade. Como diz o provérbio chinês? Se o pobre come galinha, etc. O general até uma condecoração chinesa recebeu. Na cómoda também. Deixa-te disso, volta ao presente. Faz projectos. Inventa. Não largues um único osso que abocanhes. Pergunta:
- O senhor não é aquele escritor que me esqueceu o nome?
Isto dois caramelos na rua.
- Na minha opinião é melhor que o outro que também me esqueceu o nome
e juro que esta conversa é verdade. Apertaram-me a mão, aconselharam
- Continue
e vou continuar para me esquecerem mais ainda, enquanto eles continuaram rua fora por seu turno, acotovelando-se sempre que uma mulher os cruzava. Que poder de síntese na fórmula
- Gaja boa
que profundidade apreciativa. O primeiro caramelo
- Gaja boa
e o segundo a complementar
- Do caneco
ou seja um par de génios sucintos. Aliás a expressão gaja boa é extraordinária. Diálogo ouvido hoje no sítio onde como a torrada da tarde, entre dois sujeitos de cerveja mini na mão:
- Ainda agora aqui esteve a filha do Gonçalves
- E que tal a gaja?
- Boa
que se prolongou num silêncio meditativo. O curioso do
- Que tal a gaja?
insistiu a pedir detalhes
- Boa ou muito boa?
e recebeu como resposta uma espiral indecisa da mini
- Boa
e um novo silêncio meditativo durante o qual me vim embora, a correr sob a chuva, deixando-os de sobrancelha franzida, a calcularem. Amanhã peço uma mini e bebo--a da garrafa. Virilmente. A espiar a filha do Gonçalves de baixo a cima. Talvez haja um grau intermédio entre o Boa e o Muito Boa e os possa ajudar na sua classificação taxonómica. No caso de esta chuva se transformar em trovoada a minha avó chega aqui e põe- -se a rezar e o meu avó aproxima-se da janela encantado com os relâmpagos. Por mim fico sentado no chão com um automóvel de corda. A aguentar-me